Design de Moda: Expectativas e Projetos
- FWGLAMOUR

- 30 de mai. de 2019
- 9 min de leitura
Atualizado: 6 de jun. de 2019
Na postagem de hoje vamos registrar quais eram nossas expectativas em relação à faculdade e ao curso de Design de Moda e contar um pouco sobre o nosso Projeto Interdisciplinar do 1º semestre do curso. Em seguida, vamos mostrar alguns projetos que escolhemos de 2º a 6º Semestre.
EXPECTATIVA X REALIDADE
De forma geral, as expectativas que cada um de nós tinha para como seria o primeiro semestre eram os mesmos. Primeiramente, queremos ressaltar que devido ao estereótipo de que o mundo da moda gira em torno da competição, entramos na faculdade preparados para talvez não fazer amizades de imediato e sempre desconfiar das pessoas, quando na verdade, não foi bem assim. O relacionamento na sala é como em qualquer outro lugar e rapidamente nós nos adaptamos e construímos laços.
Outro ponto a ser ressaltado é que, diferentemente do que imaginávamos, o curso de Design de Moda na Anhembi é muito mais voltado para a sustentabilidade e para o pensamento de projetos. Quando dizemos que fazemos Design de Moda, a primeira impressão é relacionada com Estilismo, Alta Costura, Personal stylist e tendências, contudo, nada disso é visto durante os oito semestres. Acrescenta-se que também imaginávamos que os projetos e os estudos não seriam tão corridos como verdadeiramente são. Os trabalhos estão presentes em praticamente todas as semanas e o prazo para entrega é menor do que o esperado, sendo que todos eles exigem grandes pesquisas, específicas e o uso frequente da biblioteca (maravilhosa) que temos à disposição.
Mesmo estando vivendo coisas completamente diferentes do esperado, o curso e a universidade tem nos deixado cada dia mais satisfeitos com nossa escolha. Os caminhos que traçamos até chegar nesse ponto foram completamente diferentes, mas hoje topamos desafios e nos ajudamos a passar por eles da melhor forma possível.

O NOSSO PROJETO INTERDISCIPLINAR
A proposta do Projeto Interdisciplinar do primeiro semestre é construir um Objeto Tridimensional Vestível (OTV) utilizando apenas materiais de descarte. Esse objeto deveria ser pautado em alguma discussão que envolvesse sustentabilidade. Pensando nisso, nosso grupo fez uma análise dos materiais que mais descartávamos e devido ao fato de sermos ex-estudantes de ensino médio e o outro membro do grupo ser uma pedagoga notamos o acumulo de materiais escolares não mais utilizados. Dessa forma, o tema escolhido para o nosso OTV foi "O desperdício de materiais escolares".
Como base teórica escolhemos as discussões sobre cultura do consumo (Moda e Identidade Cultural) e Sustentabilidade e entendimento dos processos produtivos (Introdução ao design de Moda). O nome dado ao objeto foi "METANOIA" (transformação essencial de pensamento ou caráter). Também nos baseamos nos vídeos do Instituto Akatu (voltados para o público infantil), listas de materiais pedidas pelas escolas, hábitos familiares de consumo, escolas sustentáveis, compromisso com o meio ambiente e as crianças como ferramenta transformadora do meio familiar e consequentemente da sociedade. De forma geral, os pilares teóricos que orientaram o projeto foram CONSUMO CONSCIENTE - PRESERVAÇÃO - REUTILIZAÇÃO/RESIGNIFICAÇÃO.
Em relação ao Objeto em si, o processo estético está ligado ao público infantil então envolve ludicidade, cores, atração visual e artesanato (para fortalecer o vínculo entre as crianças e os materiais e deixar as discussões em sala mais eficientes) a fim de funcionar como um lembrete aos alunos para a preservação de seus materiais.


Da esquerda para direita (na foto) ele representa: O aprisionamento do indivíduo com a ilusão de movimento (o qual é controlado); O afrouxamento (a teia do consumo fica mais espaçada por que ainda há esperança de mudança por que implantou-se a ideia); A libertação: o indivíduo é libertado da prisão do consumo a partir do conhecimento e agora já pode começar repassar essa ideia para outras pessoas).

O aspecto sustentável do OTV está no fato de que todos os materiais utilizados nesse objeto são comuns de serem descartados por alunos. A partir disso a ideia é fazer uma seleção de folhas em branco, lápis que podem ser reutilizados, borrachas que ainda tem vida útil e montar quites para doação em instituições e escolas frequentadas por crianças de baixa renda que não tem condições de comprar seus materiais. Já com os que não estão em condições de reuso e doação, reproduzir o objeto em várias salas de ensino fundamental I.
Por último, o aspecto funcional do objeto é que ele sirva como um lembrete diário do que os alunos podem estar esquecendo. Dessa forma, trata-se de um modelo, a ser reproduzido dentro de cada sala de aula, no qual os próprios alunos pendurem o que é de costume ser esquecido/descartado por eles.
Com base nisso, vemos as escolas sustentáveis como passo inicial para a transformação do pensamento nas crianças e a partir disso uma mudança de hábito familiar e de consumo. Além disso, pode-se dizer que a imagem do objeto traz consigo a ideia de Consumir conscientemente, preservar os produtos e reaproveitar quando a função inicial não for mais compatível com a forma do produto.
O PROJETO DE OUTROS SEMESTRES
Agora que relatamos o nosso projeto interdisciplinar, vamos apresentar um pouco sobre os projetos dos outros semestres do curso de Design de Moda na Anhembi Morumbi. Nós selecionamos um grupo de cada semestre, considerando de 2º a 6º (já que sétimo e oitavo são voltados ao trabalho de conclusão de curso).
2º SEMESTRE - EMANCIPAÇÃO DO CORPO TRAVESTI - Beatriz Alexssandra, Carolina Jacob, Elen Taiane, Luiza Dant, Rayssa Ferreira, Renato Cosme, Thamires Neroni . - Tema geral: Design de Moda e Sociedade
O tema geral do 2º semestre era "Design de Moda e Sociedade" e, a partir das referências fornecidas pela professora orientadora, o grupo escolheu como subtemas o Pós-pornô com recorte na sexualização e estereótipo do corpo travesti.

A partir disso, foi estabelecido um ícone para retirar as referências de vestimenta: Rosa Luz. Assim, o público alvo foram corpos travestis que não querem ser sexualizados e não querem perder sua sensualidade e liberdade para isso.
A proposta do semestre era utilizar roupas de brechós. Isso posto, o grupo fez uma pesquisa em vários brechós para eleger peças e também fizeram uma seleção das próprias roupas de cada membro.

Com isso, houve a desconstrução das peças, o croqui, as primeiras ideias (considerando o Objeto Vestível do primeiro semestre) e a confecção (parte feita na faculdade, parte mandada para costureira). As maiores dificuldades, além da convivência em grupo e divisão de tarefas, foi a adaptação do croqui para a peça e a busca por materiais que tivessem o caimento esperado mas que não fossem caras e estivessem nos brechós. Contudo, encontrar uma modelo transexual e o resultado do processo e da ideia satisfez o grupo, o qual sentiu apenas que o acabamento poderia ter ficado melhor.

3º SEMESTRE - ESTELA BLUE - Sofia, Vanessa, Esther, Fernanda, Stephany. - Tema geral: Moda e Têxteis.
O tema geral do 3º semestre tinha como público alvo os Milleniuns, e a partir disso, cada grupo deveria escolher 2 arquétipos de André Carvalhal (designer sustentável, criador da ALHMA). Em seguida, era preciso criar uma persona e montar uma coleção (3 looks desenhados e 1 confeccionado) para ela.

No caso do grupo escolhido, a personagem criada foi a Estela Blue. Nascida e criada em Pinheiros (São Paulo - SP), Estela é uma menina que está sempre correndo pela cidade e, para isso, depende de transporte público. Ela estuda Produção Musical e após a aula, faz estágio em uma gravadora e aula de dança em um estúdio. Pensando na vida de Estela, o grupo criou looks que se adaptassem a rotina dela de forma versátil. É interessante dizer que o manequim utilizado pelo grupo foi número 42 para fugir dos padrões estético-corporais convencionais da sociedade.
As roupas, em especial o look confeccionado, tem influências da mãe da personagem: feminismo, orgulho negro, influência dos anos 80.

A maior referência visual para a criação foram as cores e aspectos estilísticos da década de 80. Já em relação aos materiais, a prioridade era o conforto e a mobilidade e todos os tecidos utilizados no look foram retirados de um banco de tecidos (cetim e malha de algodão). Essa, inclusive, foi uma das maiores dificuldades do grupo (achar as combinações perfeitas dentro das limitações do banco), junto com a costura e a modelagem (essa matéria não faz parte da grade curricular do semestre). É válido ressaltar que as sobras não danificadas desses tecidos foram reutilizadas em outros trabalhos dentro da própria universidade.

Após a explicação do projeto o grupo relatou estar muito satisfeito com o resultado final do projeto. Isso porque, mesmo passando por muitas dificuldades e estresse, as meninas acreditavam muito no projeto e em seus potenciais. Dessa forma, o resultado ficou incrível e representa visualmente tudo o que foi proposto na criação da personagem.
4º SEMESTRE - O UNIFORME DE FRENTISTAS MULHERES EM POSTOS DE GASOLINA - Giovanna Lopes, Luana Oliveira, Luiza Bichir, Milena Lima. - Tema geral: O ambiente corporativo na cultura brasileira.
O tema geral do 4º semestre era "O ambiente corporativo na cultura brasileira" e o grupo escolhido fez um recorte de tema com foco nos uniformes das mulheres frentistas em postos de gasolina.

A escolha do tema deveu-se a sexualização da figura feminina, dentro desse ambiente corporativo, devido também ao uniforme (calças leggin e camisetas babylook). Durante as pesquisas o grupo constatou que o uniforme sexualizado muitas vezes é uma estratégia do posto de gasolina para atrair clientes. Pensando nisso, a proposta foi montar looks confortáveis e que não colaborassem com essa sexualização da figura feminina.

A ideia inicial do grupo era abolir o uso da leggin, porém, com as pesquisas de campo, descobriu-se que essa peça de roupa faz o gosto da maioria das mulheres por ser muito confortável. Considerando isso, o trabalho foi transformar a leggin em uma peça menos sexualizada mantendo o conforto característico. Outro passo foi escolher materiais que dessem mobilidade e conforto e que facilitassem o processo antichamas pelo qual os uniformes devem passar.
Ao final do projeto o grupo ficou feliz com o resultado e com a ideia desenvolvida mas acreditava que, em relação ao acabamento, poderia ter tido melhor resultado e cuidado.

5° SEMESTRE - EMPREGADAS DOMÉSTICAS - Beatriz Marques, Beatriz Tavares, Fernanda Domingues, Hanna Delomo, Marina Hernandes, Marjory Pinheiro. - Tema geral: Intempéries Chuvosas.
O tema geral dos projetos do 5º semestre era "Intempéries chuvosas", ou seja, os grupos teriam que fazer peças de roupas para serem usadas nos dias de chuva.

O grupo escolhido decidiu priorizar a periferia de São Paulo, pois é onde grande parte das pessoas sofrem com o problema proposto. Após fazerem um questionário online e uma pesquisa de campo, descobriram seu público alvo: empregadas domésticas.
Com a escolha do público, o grupo precisava solucionar problemas como deixar as roupas diferentes de uniformes (para que as mulheres fossem vistas apenas como trabalhadoras) e fazer peças de até R$50,00 (o valor máximo que esse público gasta em roupas por mês).

Além disso, a escolha dos materiais a serem utilizados apresentava restrição: 60% teria que ser de não têxteis. Assim seria necessário usar o upcycling e procurar materiais totalmente impermeáveis, devido ao tema. Após testes, os materiais selecionados foram plástico, guarda chuvas, waterblock e neoprene (com ênfase ao último, que não é sensível ao cloro - não mancha - já que o contato das mulheres com esse produto é frequente).
O resultado final foi considerado um sucesso pelo grupo, pois todos os objetivos foram atingidos.
6º SEMESTRE - ALVORECER - Camila, Gabriel, Giulia, Mariana, Thais e Victória. - Tema geral: Design de Moda e Inclusão Social.
O tema geral do 6º semestre era "Design de Moda e Inclusão Social", ou seja, o foco deveria ser a relação dos corpos invisíveis com o mercado e o processo de produção de roupas específicas. Dessa forma, o grupo que escolhemos iniciou uma pesquisa sobre patologias debilitantes e optou pela deficiência de melanina: Albinismo.

A pesquisa do grupo acerca da deficiência de melanina foi profunda: os membros fizeram buscas por informações em livros e conversaram com médicos (utilizaram também o Desk Research, Mapa da empatia, acompanharam a rotina de um Albino de 20-30 anos e um Mapa Mental). Assim descobriram todas as formas da manifestação da doença e descobriram quais partes do corpo eram as mais sensíveis para provarem que as roupas são ótimas formas de aumentar a qualidade de vida dos afetados.
Depois de levantar essas questões o grupo partiu para a solução de outros parâmetros. Em relação a estética, houve um processo para a escolha da cartela de cores. O ponto de partida foi a descoberta de que a palavra "Albino" tem

radical "Albus", que em espanhol é alvorada, assim, os albinos são tidos como "filhos da alvorada". Esse fato, somado ao segmento do beachwear/ resortwear (altas temperaturas, férias) deu origem a uma cartela de cores com os tons do alvorecer da praia (areia e céu).
Em relação ao parâmetro função, a coleção foi desenvolvida para uso praiano ou para cidades com praia, considerando temperaturas e clima, por exemplo. Assim, deu-se origem a looks casuais que podem ser usados na praia ou fora dela. Sobre os materiais, a escolha deu-se a partir de tecidos que já apresentassem maior proteção solar como poliéster e algodão. Sobre a forma das roupas procurou-se focar estender os tecidos para as áreas de maior sensibilidade: pescoço, cabeça, mãos.
Já no parâmetro de mercado, o foco foi montar looks mais casuais já que as roupas com proteção solar disponíveis são mais para a área esportiva e não oferecem proteção nas áreas que os albinos precisam. No parâmetro da sustentável foi a sustentabilidade social por focar em um público não muito visibilizado (não possuem nem mesmo dados no IBGE). E, por fim, o parâmetro de durabilidade com tecidos sintéticos e cores atemporais.
O grupo acrescentou que o projeto foi muito importante para a formação deles e para o entendimento real do papel do design: dar visibilidade e tratar dos corpos invisibilizados pela sociedade. Dentre as maiores dificuldades do grupo foi pensar em novas soluções (alongar as mangas, lenço no chapéu, bojo na gola das blusas) para as necessidades dos albinos uma vez que as soluções mais comuns estavam relacionadas com estética e tecidos. O mais interessante é que não só os membros do grupo ficaram extremamente satisfeitos como também os próprios modelos que tem a doença acharam as roupas válidas e compatíveis com as necessidades deles.

Esperamos que esse post possa, além de ajudar a acabar com o esteriótipo da Moda como luxo, possa também incentivar as pessoas a partirem para a área do Design. Não são só roupas, são projetos, é estudo da sociedade, é entender culturas e pessoas.
Clara, Gabriela e Lucas.
07 de junho de 2019




























Comentários